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03jul
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03jul
Fabrício Carpinejar
Nas moradias do interior, havia sempre dois quadros. A Última Ceia na cozinha e o retrato ovalado do casal de patriarcas no alto da sala. Ambos habituais em residências respeitáveis, consensuais a exemplo da escada em igreja e dos morrinhos em praça.
Marido e mulher alçados à cúpula de madeira. Maquiados para a eternidade.
A imagem revelava algo de alucinação. De amor assombrado. De inscrição de lápide. Um retrato que dava a noção de que o homem e a mulher estavam mortos mesmo que andando animados pelos corredores. Colocar quadro de um casal vivo mexia a terra por debaixo das tábuas.
A casa se tornava um túmulo. A mesa mancaria os pratos. As portas rangeriam portões de ferro.
Emanava daquele canto uma sensação de irrealidade, de antiguidade precoce. Como a fotografia ficava ruim, um artista retocava os traços com tinta a óleo. Pregava sombra no olho, corava a face, cobria as vestes de tons marrons e azulados. Melhorava o rosto.
As figuras masculinas ressurgiam com vermelho forte na boca, tomadas de um batom amoroso e fúnebre.
A fotografia também pedia a mão da pintura. Era e não era aquilo. Duas traições, a do fotógrafo e do pintor, formavam uma esquisita fidelidade. A distorção traduzia a paranormalidade de um longo casamento.
Numa conversa de café, um amigo – irei chamá-lo de Luiz como meu pai – confessou a dificuldade de encontrar a mulher de sua vida. Quem sabe até encontrou, mas não é igual a merecê-la ou suportá-la. Ninguém tem mais paciência para tolerar um amor real. Prefere um amor dentro de sua realidade.
Eu perguntei qual o sinal da paixão incondicional: Comprar aliança? Casar? Viver junto? Ter filhos? Repartir as contas?
O quê, afinal? De que modo expressaria o fim da busca?
Ele me olhou usando seus pés. Tirou os óculos e envelheceu dez anos. Pedi para que colocasse os óculos para voltar à minha idade. Alinhou as lentes e respondeu:
- Fazer um retrato pintado com ela.Brinquei que parecia idéia ultrapassada. Para mostrar quem manda e impor autoridade aos parentes. Talvez porque seja mais fácil desobedecer a um rosto afetivo do que a um quadro.
E percebi que me enganei, o desejo foi descendo lentamente em meus ombros, como um casaco redescoberto. E me transmitiu uma tranqüilidade acalorada. Uma paz de copo de água na cabeceira, de terço no retrovisor, de chave no bolso.
Um retrato na parede pára o tempo dentro de casa.
Assim como os familiares são lavados e vestidos para o enterro, aquilo era lavar e vestir o par em vida.
E percebi que não prometemos com medo de não cumprir. Quando falamos que não cumpriremos já estamos fazendo outra promessa. A promessa da negação. Não há saída: o ceticismo é uma fé ao contrário.
Penso com calma e vejo que a moldura pode ser uma aliança.
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02jul
Beto Guedes e Márcio Borges
Não quero você mais na minha casa
Corpo e rosto em pedra
Sei o que me fere em você
Eu não quero nada
Com seu riso indecente
Já conheço o seu tempero
Seu segredo e seu suor
Mas não consigo perder mais tempo
Você tem que ir embora
Já começa a amanhecer
Parece outro dia negro -
01jul
“Não deixe que os seus medos tomem o lugar dos seus sonhos.”
Walt Disney
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01jul
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01jul
Cacaso
Happy end
O meu amor e eu
nascemos um para o outroagora só falta quem nos apresente
Estilos trocados
Meu futuro amor passeia — literalmente — nos
píncaros daquela nuvem.Mas na hora de levar o tombo adivinha quem cai.
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguémA parte perguntou para a parte qual delas
é menos parte da parte que se descarte.
Pois pasmem: a parte respondeu para a parte
que a parte que é mais — ou menos — parte
é aquela que se reparte.Passeio no bosque
o canivete na mão não deixa
marcas no tronco da goiabeiracicatrizes não se transferem
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30jun
Rubem Braga
“VOCÊ nunca saberá o bem que sua carta me fez…” Sinto um choque ao ler esta carta antiga que encontro em um maço de outras. Vejo a data, e então me lembro onde estava quando a recebi. Não me lembro é do que escrevi que fez tanto bem a uma pessoa. Passo os olhos por essas linhas antigas, elas dão notícias de amigos, contam uma ou outra coisa do Rio, e tenho curiosidade de ver como ela se despedia de mim. É do jeito mais simples: “A saudade de…”
Agora folheio outras cartas de amigos e amigas; são quase todas de apenas dois ou três anos atrás. Mas, como isso está longe! Sinto-me um pouco humilhado pensando como certas pessoas me eram necessárias e agora nem existiriam mais na minha lembrança se eu não encontrasse essas linhas rabiscadas em Londres ou na Suíça. “Cheguei neste instante; é a primeira coisa que faço, como prometi, escrever para você, mesmo porque durante a viagem pensei demais em você…”
Isto soa absurdo a dois anos e meio de distância. Não faço a menor idéia do paradeiro dessa mulher de letra redonda; ela, com certeza, mal se lembrará do meu nome. E esse casal, santo Deus, como era amigo: fazíamos planos de viajar juntos pela Itália; os dias que tínhamos passado juntos eram “inesquecíveis”.
E esse amigo como era amigo! Entretanto, nenhum de nós dois se lembrou mais de procurar o outro.
Essa que se acusa e se desculpa de me haver maltratado — “mais pourquoi alors ai-je été si méchante… j’ai dú te blesser, pardon… oh, j’étais vraiment stupide et tu dois Voublier… je veux te revoir…”, mas eu não me lembro de mágoa nenhuma, seu nome é apenas para mim uma doçura distante.
E que terríveis negócios planejava esse meu amigo de sempre! Sem dúvida iríamos ficar ricos, o negócio era fácil e não podia falhar, ele me escrevia contente de eu ter topado com entusiasmo a idéia, achava a sugestão que eu fizera “batatal”, dizia que era preciso “agir imediatamente”. É extraordinário que nunca mais tenhamos falado de um negócio tão maravilhoso.
Aqui, outro amigo escreve do Rio para Paris me pedindo um artigo urgente e grande “sobre a situação atual da literatura francesa, pelo menos dez páginas, nossa revista vai sair dia 15, faça isso com urgência, estamos com quase toda a matéria pronta”. Não fiz o artigo, a revista não saiu, a literatura francesa não perdeu nada com isso, a brasileira, muito menos.
As cartas mais queridas, as que eram boas ou ruins demais, eu as rasguei há muito. Não guardo um documento sequer das pessoas que mais me afligiram e mais me fizeram feliz. Ficaram apenas, dessa época, essas cartas que na ocasião tive pena de rasgar e depois não me lembrei de deitar fora. A maioria eu guardei para responder depois, e nunca o fiz. Mas também escrevi muitas cartas e nem todas tiveram resposta.
Imagino que em algum lugar do mundo há alguém que neste momento remexe, por acaso, uma gaveta qualquer, encontra uma velha carta minha, passa os olhos por curiosidade no que escrevi, hesita um instante em rasgar, e depois a devolve à gaveta com um gesto de displicência, pensando, talvez: “é mesmo, esse sujeito onde andará? Eu nem me lembrava mais dele…”
E agradeço a esse alguém por não ter rasgado a minha carta: cada um de nós morre um pouco quando alguém, na distância e no tempo, rasga alguma carta nossa, e não tem esse gesto de deixá-la em algum canto, essa carta que perdeu todo o sentido, mas que foi um instante de ternura, de tristeza, de desejo, de amizade, de vida — essa carta que não diz mais nada e apenas tem força ainda para dar uma pequena e absurda pena de rasgá-la. -
30jun
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30jun
Composição: Neil Diamond – Versão: Rossini Pinto
Quanto mais eu penso em lhe deixar
Mais eu sinto que eu não posso
Pois eu me prendi a sua vida
Muito mais do que devia
Quando é noite de regresso você briga
Por qualquer motivo
Confesso que tenho vontade de ir pra bem longe,
Pra nunca mais te verÓ meu amado porque brigamos
Não posso mais viver assim sempre chorando
A minha paz estou perdendo
A nossa vida deve ser de alegria,
Pois eu lhe amo tantoJá não consigo esquecer as tolices
Que você diz nessas horas
Já tentei mais não posso
Tenho a impressão que do amor que uma dia existiu entre nós
Hoje só resta uma chama apagando
O medo de ficar só me apavora
E eu me desespero
Só me resta pedir sua ajuda
Pedir que você não me deixe meu amorÓ meu amado porque brigamos
Não posso mais viver assim sempre chorando
A minha paz estou perdendo
A nossa vida deve ser de alegria -
30jun
Alice Ruiz
sumiê de fios, de folhas, sem tinta e sem pincel, onde o espaço faz papel de papel, o fio faz o efeito da escrita, os livros, fios em branco, são lidos pelo avesso, de lado, de vulto, de soslaio, os fios das folhas em ritmo, ora gráfico, ora elétrico, escrevem rimas ricas, linhas em todas as direções devolvem, resolvem nosso emaranhado enquanto flutua a dura madeira, nua carne, árvore madura suspensa, susto que pensa, pressente, arrepio de pêlos que nascem, atravessam, passam, morrem no pálido da pele onde ainda persiste um nada que se move na força dos fios e revela sua leveza e eleva o peso do espaço com todas as palavras não ditas

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