Xico Sá
Nada como aquela olhadinha que ela dá quando lá embaixo.
Ainda e pra sempre, da série “detalhes tão pequenos de nós dois”. A vida se resume a observar, microscópio de eros, rei Roberto e velho Nelson, a mulher e o seu drama.
Nada como aquela olhadela, sobrancelhas assanhadas, mirando lá de nossos países baixos cá para cima do nosso cocuruto alumbrado.
Tão lindamente sacana, ah, que nega a minha nega, derreto-me como mantchega!
Ela quer saber se estou gostando, claro que estou mortinho ali no pré-gozo. Tem um orgulho, “vê como faço bem feito e com gosto”, ali naquela olhadinha plongé, contra-plongé, depende de quem vê…
Como eu gosto, ela diz, posso?
Aperto com força os seus cabelos, resvalando numa fração de segundo para um carinho no rosto, lado esquerdo, com o lado B da mão e dedos, quiromancia e mistérios.
Ela desce lá naquele cantinho fronteiriço, desenha a história do olho com riscos da língua em círculos, lambe a última costura da minha pobre existência, nirvaniza-me, petite mort, e assina nossos batismos lindos com lambidas góticas, assim como quem escreve inocentemente na areia, coraçãozinho flechado, e o nome de quem aposta, como se o amor fosse um jogo do bicho.
Não resisto a olhadinha lá de baixo, vem cá, estou longe e perto, meu amor, tudo em volta está deserto, tudo certo, como na canção do 2 e 2 são cinco. Como nosso universo é tão perfeito aqui na cama, só na cama, lá embaixo, na cama zen, japão do amor, horizontalizo-me, para sempre, viro réptil, nunca mais me levanto, nunca mais me levanto e ando, odeio meus Lázaros internos, agora eu quero mais é nadar no seco, melhor jeito de navegar aos teus pés, e de vez em quando, quer saber?, afundo as mãos nos arrecifes e te dou um peixinho, como aquele do conto de Virgílio Piñera, que aprisiono nas profundezas sujas das nossas existências.
Fabrício Carpinejar
Entrei no banheiro do aeroporto quase de olhos fechados, tateando as paredes após experimentar contenção de camelo.
Escolhi o vaso da ponta esquerda, para não embaraçar os vizinhos. Na real não escolhi nada. Com o ambiente lotado, peguei o primeiro vago.
Na hora em que abri a braguilha, gelei. Não é que não encontrei meu pau. Não é que tive nojo da poça em meus pés, coisa natural em WC masculino.
Enxerguei uma boneca no mictório. Uma Barbie me mirava com sua atitude sorridente de gueixa. Agachada, como que depilando as pernas no chuveiro.
O que fazia ali? Arrisquei puxá-la pela gola, mas faltou coragem. A garota já estava ensopada.
Busquei reprimir o jato, observei ao redor para localizar algum canto alternativo: apenas a pia. Fracassei no exercício de ioga. Respirei cachorrinho, respirei gato, respirei tamanduá, mas o controle escapou e urinei longamente. Tentei em vão não acertar sua cabeleira, não estragar sua pintura, reduzir a artilharia em sua pele branca.
Por um triz não chorei, lembrei dos caprichos de minha filha conduzindo seu carrinho de bebê no pátio. Senti que traí a minha paternidade.
Quem colocou uma boneca no mictório? Quem dobrou a pequena no porta-malas imundo? Quem sequestrou a beldade e a lançou no ralo artístico de Duchamp? Quem apresentaria tal grau de perversão? Especulei ser obra de um misógino recente e amador, um corno vingativo, homem amargurado, arrebentado pela infidelidade de sua mulher. Pegou um dos símbolos femininos para mijar em cima. Rompeu o fair play entre os sexos. Agiu como um psicopata de loja de brinquedos.
A Barbie atendeu aos rituais de um vodu. Não encontrava outra explicação. Um sujeito optou pela magia negra, a exorcizar os enganos e desventuras do casamento. No lugar da farofa e da cachaça, da galinha morta na esquina, da macumba prendada, invadiu um dos santuários masculinos e atirou a virgem no vulcão.
Ele sabia que não existia modo de resgatá-la, a peça sobraria vulnerável diante do pelotão apressado de fuzilamento. Empreendeu um plano diabólico, intencionado a humilhá-la em público e escandalizar os frequentadores dos voos. Ainda era a Barbie com roupa de gala. Seria menos ofensivo se fosse a esportista, acostumada a rapel e esportes radicais.
Aquilo me transtornou, gerou azia e impotência. Talvez escutando Fagner redescobriria que existe algo pior na vida e retomaria a honra.
Eu me culpava por esguichar na Barbie. Uma atrocidade indesculpável para seguir em frente na convivência doméstica. Um trauma sem perdão. Já queria me confessar, alugar um padre, contribuir com entidade beneficente.
Julgava o caso perdido, a mesma dimensão de um acidente aéreo.
Corri, suado, para a sala de embarque. Trocando as pernas, atabalhoado. Sentei próximo da porta, ansioso pelo chamado da companhia, para distrair o ressentimento nas nuvens. Foi quando acompanhei uma senhora recriminando o filho, uma menina miando desesperada de canto, um pai encabulado com a família histérica.
A mãe sacudia o menino:
— Onde você pôs a boneca de sua irmã? Onde?
Xico Sá
O jornalista é o único animal do planeta que quanto mais avança a tecnologia mais o desgraçado trabalha. Isso é o que mais perturba e intriga. Agora mesmo, sábado, 17h40, e eu em cima dessa máquina.
Todos evoluíram com os tempos modernos e novos sistemas. Até o burro do campo, se livrou do arado pré-histórico.
Nós, muito pelo contrário, aumentamos a nossa carga: fazemos o jornal, atualizamos o blog, perguntamos e ao mesmo tempo filmamos o entrevistado… Cobramos escanteio, corremos para cabecear e no percurso entre a bandeirinha do córner até a pequena área ainda mandamos uma informação no Twitter aos seguidores das obsessivas páginas virtuais.
Lembro bem o dia que apareceu o primeiro computador nas redações. Além do susto de alguns tiozinhos, o entusiasmo dos mais jovens: agora vamos diminuir as jornadas. Qual o quê. Com a internet, pior ainda, viramos processadores multiuso, centrífugas, chupa-cabras de textos e notícias.
O pior: o furo, essa mercadoria de luxo dos jornais, agora gira na velocidade do minuto a minuto. Parem as máquinas, quero meu furo -com 24 horas de vida, pelo menos- de volta.
Fabrício Carpinejar
Abro a janela para sentir onde estou; somente a lufada no rosto resolve. O vento é o único meteorologista em que confio.
Hotel provoca miragem: não acertamos se está frio ou quente lá fora.
O controle do ar repousa ao lado dos canais de televisão. No gabinete. É o efeito estufa em minha vida – viajando, permaneço sempre na mesma temperatura. Gostaria de arder de calor de madrugada ou me encolher de frio, somente para me enxergar em casa. Vida cômoda demais incomoda. A melhor gula é vencer a dormência e mexer na geladeira de noite. O melhor sono, portanto, depende de um esforço físico, em abandonar a zona de conforto, é aquele que caminhamos no escuro por um cobertor ou duelamos com o lençol, empurrando o tecido como um morto no despenhadeiro.
Só que em alguns hotéis a janela está fechada, como o do bairro Anhembi, em São Paulo. O quarto lacrado não me deixava trabalhar em paz. Liguei para a governança:
- Pode abrir as janelas, estou aflito?
- Sim, estou mandando um mensageiro.
Demorou uma hora, e nenhum sinal em minha porta. Insisti, com receio de uma conspiração.
- Eu pedi para abrir as janelas…
- Sim, desculpa, estou mandando um mensageiro.
O jovem chegou. Tinha uma barbicha para forçar a idade. Na minha adolescência, todo rapaz era um bode. Alguns continuam sendo.
Ele veio com um cardápio para assinar.
- Não pedi nada para comer ou beber.
- O senhor não solicitou a abertura das janelas?
- Sim.
- Deve assinar aqui.
- Por quê?
- Para abrir a janela.
- Como?
- O senhor precisa se responsabilizar por abrir a janela.
- Mas eu não me responsabilizei por abrir a porta, por abrir a geladeira, por abrir as gavetas. Que isso?
- É norma do hotel. Abriremos as janelas com seu termo de anuência.
Rabisquei na linha em branco para encerrar o assunto. Nunca tinha pensado em suicídio até aquele momento. Foi tanta solenidade que fiquei com vontade de me matar. O mensageiro criou a fantasia mórbida com o ofício. Deu a ideia. Fomentou a imaginação. Agora sim estava aflito com as cortinas farfalhando. As alturas me chamavam pelo apelido, com inegável intimidade.
Aguentei o pânico, suspeitei que, se me atirasse no pavilhão da Bienal do Livro colado ao hotel, o mundo inteiro diria que era mais um dos meus golpes de marketing.
Desci ao saguão disposto a respirar o térreo. Fugi imediatamente dali. Encontrei André, amigo de editora, lendo jornal. Puxei papo para me distrair. Evidente que descrevi os últimos acontecimentos.
Mas ele ficou pálido, mais nervoso do que eu, envergonhado. Resmungou:
- Quando entrei no meu apartamento, as janelas estavam abertas. Nem pediram minha autorização. Vou reclamar ao gerente, não é um convite ao suicídio, já é um assassinato.
Ana Paula Ganzaroli
Você sabe que é nerd se usa óculos. Todo nerd usa, se não usa, não é nerd.
Você sabe que é nerd se gostava muito, mas muito, mas tanto que chegava a doer de português e/ou matemática. Você fazia a tarefa mínima e a tarefa complementar da escola com os pés nas costas.
Você sabe que é nerd se passava cola na escola. Se os seus “colegas” se tornavam amigos no dia “D” e se o seu professor te isolava nas provas finais.
Você sabe que é nerd se tem rinite. Todo nerd tem, é uma lástima. Não sei explicar se é por conta da conjuntura dos planetas, ou por mera falência parcial dos seus glóbulos brancos e ou por mera teoria darwiniana
Você sabe que é nerd se fala em glóbulos brancos e Darwin e se gosta de ir à biblioteca, do cheiro dela, dos livros de lá, mas principalmente, das pessoas que lá frequentam.
Você sabe que é nerd se antes de experimentar drogas foi ler um livro para saber o efeito e dependência que cada uma causaria em seu organismo e para não trocar gato por lebre.
Você sabe que é nerd se gosta de Machado de Assis.
Você sabe que é nerd se descobre o sexo primeiro pelos livros, depois pela tv, depois pelos amigos e só por último, na “vida real”.
Você desconfia que seja nerd se for o último a perder a virgindade. Se você troca uma saída com seus amigos para assistir a um documentário super legal no History Chanel.
Você sabe que é nerd se sua mãe voltava orgulhosa da reunião de pais e mestres, e exibia o seu boletim com um beijo na bochecha e com a promessa de um presente fora de época.
Você sabe que é nerd se imagina um verso para a pessoa amada ou se faz declarações de amor cheias de poesia, ainda que nunca vá às vias de fato.
Você sabe que é nerd se lê vários livros por ano, mas ainda assim se culpa, porque a sua lista de livros-memoráveis-para-ler-antes-de-morrer, não pára de crescer.
Você percebe que virou um nerd se faz listas de compras, pior, se faz orçamento mensal, pior ainda, se faz orçamento anual, e tem duas previdências privadas. Tudo é sempre muito planejado porque o nerd tem medo de arriscar.
Você percebe que é nerd se ficou envergonhado por ter respondido muitas vezes com um “sim” ao ler o texto.
Mas veja, não fique triste, e nem se ache excluído ou parte das minorias que viraram feriado nos calendários, eu descobri que sou uma nerd também.
Vale lembrar que sempre vai ter um (a) nerd por perto. Preste atenção quando alguém fizer “atchim”, se for bonito (a) e usar óculos, comece a treinar os versos e poemas. Ela (ele) vai adorar, afinal, os nerds também amam, e ainda declamam Drummond.
Dalton Trevisan
Na volta da lua-de-mel, Maria em lágrimas confessou à mãe que ainda era virgem.
Lembrava dona Sinhara como o noivo se apresentou pálido na igreja, por demais nervoso? Justificou que, filho amoroso, muito se afligia com a mãe doente. No ônibus, a mão suada, e esquecido da noiva, olhava a paisagem.
Primeira noite o varão fracassou vergonhosamente. Foi alegada inexperiência. A estranha palidez na igreja de violenta crise nervosa — a mãe tinha saúde perfeita. Maria iludiu-se que era desastre passageiro. Ai dela, assim não foi: noite após noite João repetiu o fiasco. Arrenegava-se de trapo humano, não tomava banho nem fazia a barba. A pobre moça buscou recuperá-lo para os deveres de estado. Uma noite, envergando a capa pijama, saiu de óculo escuro, a noite inteira entregue às práticas do baixo espiritismo.
— O que me conta, minha filha! Me nego a acreditar. João, um rapaz tão simples, tão dado… Dona Sinhara evocava o noivo delicado e de fina educação.
— É para a senhora ver, mãe!
Dia seguinte ao casamento um tipo esquisito, que vivia aflito. Uma feita e outra feita, submeteu a moça a provas de intimidade, as quais não foram além do ensaio.
Mais que se enfeitasse para agradá-lo, indiferente aos encantos de Maria. De vez em longe, sem resultado, perseguia o impossível ato. Depois a acusava de única culpada. Suspeitando-a de traição com o primeiro noivo, agredida a bofetão e pontapé:
— Tem de apanhar bastante, Maria. Você é uma histérica!
Proibida de pintar a olho, tingir o cabelo, usar saia curta e calça comprida, sem que ele chegasse a conhecer a noivinha.
Pretendia arrastá-la ao suicídio a fim de esconder o seu desastre. Em provocação soprava-lhe no rosto a fumaça do cigarro.
Com a brasa queria marcar-lhe a bochecha para que deixasse de ser vaidosa.
— Por que judia de mim, querido?
— Bem sabe por que, sua cadela!
E, quarenta dias de casada, vinte em viagem e vinte em casa, ali estava Maria, a mais inteira das donzelas.
— Ter uma conversa com esse sujeitinho — bradou furiosa dona Sinhara.
Não era tudo: comprou coleção de fotos pornográficas, obrigada a admirá-las uma por uma. Nem assim prestou-se aos caprichos do noivo — eram quadros imundos e pecaminosos. Suspendendo pelo cabelo ou afogando a garganta, ele a constrangia às suas loucas fantasias. Saciado, era jogada ao chão, dali erguida aos bofetões.
— Ah, o teu pai que saiba… – persignou-se dona Sinhara.
Na volta da lua-de-mel, João em lágrimas confessou à mãe que a noiva não era pura. Desde a primeira noite, mais carinhoso que fosse, acusava-o de trair o seu ideal. Sá havia casado para se livrar dos pais e merecer o título de esposa.
— Por que judia de mim, querida?
— Você não soube ganhar o meu amor.
Ao exigir satisfações, ouviu dela que tinha caspa na sobrancelha. Censurava-o por deixá-la fria e manifestava repulsa física. Se insistia em tomá-la nos braços, atacada dos nervos, atirava-se ao chão em convulsões. Para reanimá-la, sacudia-a gentilmente, batia de leve no rosto.
Não era a ele que amava e sim ao primeiro noivo, de quem se separou por exigência dos pais. Três dias antes do casamento, estivera com a mãe na casa de Joaquim, propusera com ele fugir, mas o outro respondeu que era tarde. Além do mais, segunda dona Sinhara, todos os convites já distribuídos.
Não queria confessar, abrigada revelava toda a verdade — somente nojo sentia por ele, os seus dentes eram amarelos:
— Depois que me beija tenho de cuspir três vezes!
Não saía do espelho, olho pintado, de saía curta ou calça comprida, o cabelo retinto de loiro:
— Nasci para artista. Não mulher de você, una pobretão!
Reclamando de sua presença no leito conjugal, implicava com o assobio do nariz torto de João:
— Vai você ou vou eu para a sala?
Por ter comido salada de cebola — lembrava-se a mãezinha de como gosta de bife sangrento? — forçado a dormir no sofá.
— O que me conta, meu filho! Me nego a acreditar. Maria, moça tão querida, tão dada… Educada no colégio de freiras, toda cuidados com a futura sogra: um beijinho aqui, um abracinho ali.
— É para ver, mãe! Usa roupa de baixo que a senhora não imagina…
Se não a deixasse em paz, Maria acabava seus dias: engolindo vidro moído, escrevia com batom no espelho que era o culpado. Tal intriga fizera para os sogros que, ao visitá-la, conversavam apenas com a filha, nem cumprimentavam o pobre rapaz, como se ausente estivesse. Uma tarde surgiu-lhe o sogro porta adentro, bradando que recolhera a moça descabelada. Queria saber o que lhe fizera para que ficasse tão chorosa. Se era verdade que lhe marcava a coxa, com brasa de cigarro, se lhe surrupiava o dinheiro da bolsa, se ao sair de casa apagava todas as luzes. Sem esperar a resposta, berrou que tinha mais duas filhas para casar e bateu a porta.
— Ter uma conversa com essa sujeitinha — acudiu furiosa dona Mirazinha, com a mão no peito, sofria de palpitação.
Qual a sua surpresa: a náusea da noiva era… de estar…
— Grávida?! — espantou-se dona Sinhara. — Grávida, apesar de virgem?
O incrível resultado de um ato falho do noivo, segundo Maria, tanto bastou para a concepção.
— Grávida?! — surpreendeu-se dona Mirazinha. — E ainda pretende que é virgem?
— Para a senhora ver, mãe, quem ela é. Após a confissão do filho, Maria foi visitada pela sogra:
— Eu vivo para Cristo. Não para o imundo de seu filho!
Após a confissão da filha, João recebeu a visita de dona Sinhara, que se instalou na companhia dos noivos. A moça não deu a menor atenção a João assim não fosse o rei da família. Ele passava o dia no trabalho e, de volta, queria certa liberdade: lá estava a maldita sogra. Negando-se a moça a ir para o quarto, ficavam bocejando na sala diante da televisão, até que dona Sinhara os mandava dormir. Ele não exercia poder sobre a noiva: nem bife sangrento nem cebola na mesa.
Bem desconfiou que ela era amante da própria tia Zezé. Revoltou-se contra a atitude da noiva que, instigada pela mãe, se negava a cumprir o dever conjugal, arrependida de ter casado tão novinha quando podia aproveitar a vida.
Sempre na casa do pai, Maria confidenciava que João dormia a manhã inteira. À tarde, em vez de ir para o emprego, escondido na esquina, espiava se a pobre moça não recolhia o ex-noivo Joaquim. Mostrava uma folha em branco, exigia lhe revelasse o que estava escrito, eram palavras em tinta invisível — bom pretexto para tentar esganá-la a toda custo.
Existe um motivo para o noivo sentir ciúme, pensou dona Sinhara, é não ser o rei da casa. Bradou para Deus e o mundo que João não era homem bastante para sua filha.
O moço confidenciou para a mãe que, na tarde anterior, entrara a noiva batendo a porta (ó família que tanto bate a porta) e gritando bem alto:
— Fomos a uma parteira. Ela provou que sou virgem!
O pobre rapaz discutiu com o sogro que era detalhe para ser esclarecido.
— Quantos anos você tem, João?
— Vinte e três, sim senhor.
— Com essa idade, João, não sente vergonha de uma esposa virgem?
— Virgem, porém grávida.
O velho indignado exigiu a filha de volta. Respondeu João que Maria estava muito bem com ele. O sogro berrou que se retirasse imediatamente, e a partir daquele dia, proibido de pisar nos seus domínios.
Dona Mirazinha perguntou a uma amiga:
— Como vai a grande cadela?
Porque a chamava de cadela, Maria nunca mais foi visitá-la.
Cada um se queixa do outro para a respectiva família. Ora, a família de Maria está ao lado dela. E a família de João ao lado dele. Casados de três para quatro meses e Maria, segundo ela, sempre virgem. Como pode ser, contesta João, se está grávida?
Um mistério que até hoje não foi decifrado.
Mario Prata
Quando o Chico Buarque escreveu o verso acima, ainda não tinha o ‘que você nem leu’. A palavra Neruda – prêmio Nobel, chileno, de esquerda – era proibida no Brasil. Na sala da Censura Federal o nosso poeta negociou a proibição. E a música foi liberada quando ele acrescentou o ‘que você nem leu’, pois ficava parecendo que ninguém dava bola para o Neruda no Brasil.Como eram burros os censores da ditadura militar! E coloca burro nisso!!!
Mas a frase me veio à cabeça agora, porque eu gosto demais dela.Imagine a cena. No meio de uma separação, um dos cônjuges (me desculpe apalavra) me solta esta: me devolva o Neruda que você nem leu! Pense nisso.
Pois eu pensei exatamente nisso quando comecei a escrever esta crônica, que não tem nada a ver nem com o Chico, nem com o Neruda e, muito menos, com os militares.
É que eu estou aqui para dizer um tchau. Um tchau breve porque, se me aceitarem – você e o diretor da revista -, eu volto daqui a dois anos. Vouaté ali escrever uma novela na Globo (o patrão vai continuar o mesmo) e depois eu volto. Esperando que você já tenha lido o Neruda.
Mas aí você vai dizer assim: pô, escrever duas crônicas por mês, fora a novela, o cara não consegue? O que é uma crônica? Uma página e meia.Portanto, três páginas por mês e o cara me vem com esse papo de Neruda?Preguiçoso, no mínimo.
Quando faço umas palestras por aí, sempre me perguntam o que é necessário para se tornar um escritor. E eu sempre respondo: talento e sorte. Não necessariamente nessa ordem. Sou um homem de sorte. Entre os 10 e 20 anos, recebia na minha casa O Cruzeiro, Manchete e o jornal Última Hora.E lá dentro eu lia (me invejem): Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino, Millôr Fernandes, Nelson Rodrigues, Stanislaw Ponte Preta, Carlos Heitor Cony. E pensava, adolescentemente: quando eu crescer, vou ser cronista.
Bem ou mal, consegui meu espaço. E agora, ao pedir de volta o livro chileno, fico pensando em como eu me sentiria se, um dia, um desses aí acima escrevesse que iria dar um tempo. Eu matava o cara! Isso não se faz com o leitor (desculpe, minha amiga, não estou me colocando no mesmo nível deles,não)!
E deixo aqui uns versinhos do Neruda para as minhas leitoras de 30 e40 anos (e para todas):
”Escuchas otras voces em mi voz dolorida
Llanto de viejas bocas, sangre de viejas súplicas,
Amame, compañera. No me abandones. Sigueme,
Sigueme, compañera, em esa ola de angústia.
Pero se van tiñendo com tu amor mis palabras
Todo lo ocupas tú, todo lo ocupas
Voy haciendo de todas um collar infinito
Para tus blancas manos, suaves como las uvas.”
Desculpe o mau jeito: tchau!
Ivana Arruda Leite
Hoje eu trago à baila uma discussão sempre presente nas rodas de pessoas ligadas à literatura, mas que pode perfeitamente ser estendida a outros campos.
Literatura feminina. Existe? Não existe?
Geralmente as escritoras ficam possessas com esse adjetivo. Literatura é literatura, independente do sexo – dizem elas. Eu concordo, mas com ressalvas. Vou tentar me explicar. Homens e mulheres são diferentes. Até aqui, tudo bem? Temos histórias diferentes, visões de mundo diferentes, emoções diferentes. O que quer que a gente faça, leva a nossa digital. É impossível passar ao largo das diferenças, nem que seja para contradizê-las frontalmente.
O escritor fala de sentimentos humanos, independente do sexo. Mas se o texto foi escrito por uma mulher isso há de estar lá dentro. Se a condição feminina impregna nossas ações, pensamentos e emoções como ela não estaria presente na obra que produzimos?
O que não quer dizer que lendo um conto ou um romance pode-se acertar o sexo do autor. Homens escrevem como mulheres e vice-versa. A nossa marca não está no texto em si, mas na maneira como ele é produzido.
Agora, o que também me deixa brava são os preconceitos que o termo esconde. E é aí que a coisa se amplia: 1. todas as mulheres escrevem igual. É muito fácil passar por cima das diferenças e nos ver como uma coisa só; 2. literatura feminina é sempre melada, anêmica, cor-de-rosa. Como se toda mulher fosse mulherzinha; 3. Mulheres só escrevem sobre mulheres. Como se não tivéssemos capacidade (ou autoridade) para falarmos de nada que fosse além do nosso umbigo, do nosso mundinho de faz de conta.. No caso da literatura, basta uma rápida olhada pela produção literária das mulheres de hoje em dia para ver que essas hipóteses não se verificam.
Mesmo assim eu acho mais instigante o desafio de provar que a literatura feminina pode ser de altíssima qualidade, do que tentar a extinção do termo.
Por isso, quando me perguntam, eu respondo com o maior orgulho: literatura feminina existe sim, e daí? Vai encarar? Senta aqui e vem ver o que uma mulherzinha é capaz de fazer com a sua cabeça.
Xico Sá
Você, amigo, sai com a pequena e ela só belisca, qual um passarinho, uns saudáveis farelos ou engole umas folhinhas sem graça. Que desgosto. Você caprichou na escolha do restaurante, acordou com água na boca por um prato que só você sabe onde encontrá-lo, quer fazer uma presença, fazer bonito com a cria da sua costela.
Que desgosto, a gazela mira o ambiente com “nojinho”, de tão fresca. Uma estraga-prazeres, eclipse de um belo sabadão ensolarado.
Ah, nada mais bonito do que uma mulher que come bem, com gosto, paladar nas alturas, lindamente derramada sobre um prato de comida, comida com sustança. Os olhinhos brilham, a prosa desliza entre a língua, os dentes, sonhos, o céu da boca. Ela toma uma caipirinha, a gente desce mais uma, sábado à tarde, nossa doce vida, nossos planos, mesmo na velha medida do possível.
Pior é que não é mais tão fácil assim encontrar esse tipo de criatura. Como ficou chato esse mundo em que a maioria das mulheres não come mais com gosto, talher firme entre os dedos finos, mãos feitas sob medida para um banquete nada platônico.
Época chata essa. As mulheres não comem mais, ou, no mínimo, dão um trabalho desgraçado para engolir, na nossa companhia, alguma folhinha pálida de alface. E haja saladinha sem gosto, e dá-lhe rúcula!
A gente não sabe mais o que vem a ser o prazer de observar a amada degustando, quase de forma desesperada, um cozido, uma moqueca, uma feijoada completa, uma galinha à cabidela, massa, um chambaril, um sarapatel, um cuscuz marroquino/nordestino, um cabrito, um ossobuco, um bife à milanesa, um tutu na decência, mocotó, um baião de dois, uma costela no bafo, abafa o caso!
Foi embora aquela felicidade demonstrada por Clark Gable no filme ”Os Desajustados”, quando ele observa, morto de feliz, Marilyn Monroe devorando um prato de operário. E elogia a atitude da moça, loa bem merecida.
Além do prazer de vê-las comendo, pesquisas recentes mostram que as mulheres com taxas baixíssimas de colesterol costumam ser mais nervosas, dão mais trabalho em casa ou na rua, barraco à vista, intermináveis discussões de relação… Nada mais oportuno para convencê-las a voltar a comer, reiniciá-las nesse crime perfeito.
Moças de todas as geografias afetivas e gastronômicas, aos acarajés, às fogazzas, aos pastéis, aos cabritos assados e cozidos, ao sanduíche de mortadela, à dobradinha à moda do Porto, ao lombo -de lamber os lábios!-, ao churrasco de domingo para orgulho do cunhado que capricha na carne e sabe a arte de gelar uma cerva. E aquela fava, meu Deus, com charque, enquanto derrete a manteiga de garrafa, último tango do agreste.
O importante é reabrir o apetite das moças, pois, repito, senhoras e senhores, o velhíssimo mantra: homem que é homem não sabe sequer -nem procura saber- a diferença entre estria e celulite.
Até a próxima e desejo a todas as mulheres um final de semana com muita gula e todos os pecados capitais possíveis. Sem culpa, meninas!
Bianca Rosolem
Em um mundo de informações ao toque de botões, você percebe que são clipes de comerciais, rápidos, consome pá-pum, acaba tudo no banheiro e na descarga. O tempo é regulado no despertador: Acorda, se arrasta, almoça “de olho” no colesterol, algumas horas para chegar em casa, deitar para dormir morrendo…Já é hora de tudo mais uma vez.
Quem muito pensa, continua pensando, e cai de boca no relógio atroz das avenidas. “Não tem chance, não”, dizem os comprometidos em não viver. Todos correm, se acotovelando para entrar no metrô, nos cinemas, nos teatros, nas lanchonetes de minuto, e nas vagas da vida. É o espaço apático de escolhas submissas. Um carro, um aluguel, um cachorro com depressão, uma tv de LCD. Você critica e não o chamam mais para a reunião de condomínio.
Sentado em algum café, com o jornal nas mãos, você delira alguma saída, alguma rota escondida que o distancie do lugar comum das satisfações anêmicas. Algum dia você leu e acreditou que existia algo errado com este fluxo lento de não parar. Você olhou de sua janelinha e pensou “Para onde estas pessoas insistem em sempre chegar?”. E, no momento deste pensamento, um sulco violento se estendeu dos seus pés até o céu, e se fosse algo de cair, você descobriria que já estava no inferno desde… Um choro, te levaram para a enfermaria e muitos olhos depositaram sobre você sonhos calados e guardados em gavetinhas. Olharam você, careca e sem dente, tão amorfo, e acreditaram que dali existiria algo especial. Acho que o nome disso é esperança.
Mas nasceram dentes, cabelos, idéias, e tantas coisas, que você assoprou em um espirro involuntário os desejos de outros. Você era mais um, e mesmo assim, tão vulgarmente comum em seus erros, você era diferente. Com as expectativas frustradas, você era livre, quase livre, praticamente liberto para escolher o que DEVERIA no momento ERRADO. E assim, seus passos tropeçaram na maioria e, cada dia mais você realizou que toda essa escolha era um grande engodo.
Começou a era do paradoxo, onde tudo não era, e você apenas se entendia bêbado, naquele instante entre dormir e estar embriagado. Era só paz.
E você se sentiu velho, uma vez que já não era mais tempo de errar. Mas, ainda era jovem, porque queria sempre começar.
Mas alguém disse “no mundo não existem segundas chances”, você ouviu e ficou pensando muito. Foi dar uma volta. Ainda não retornou, e eu estou esperando para te contar umas coisas que descobri. Acho que nos enganaram.

