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Salgado

Alice Ruiz

sol nas salinas
ainda mais luz
que lá encima

No Futuro

Fabio Rocha

Sempre gostou de contar dinheiro. Vivia cantando e contando. Adorava os extratos crescendo, os juros das contas remuneradas, os aniversários das cadernetas… O que podia, economizava para ver o montante crescer.

Nunca ia ao cinema, evitava comer fora, não aumentava a mesada dos filhos há 3 anos… Na última vez que fora ao supermercado com a esposa, acabou o casamento.

Desde então, solitário, seu estado foi se agravando. Começou a emagrecer pois comprava menos comida. Chegou a alugar o próprio apartamento e foi viver na rua.

Quando seu filho o encontrou, estava morando sob o viaduto do Méier, cercado de mendigos. Esse foi o limite. Interditaram judicialmente o pobre homem e gastaram todo o seu dinheiro.

No hospital psiquiátrico, ele passou o resto da vida guardando todo o tipo de quinquilharia.

- Temos que pensar no futuro…, dizia.

Morreu em dois anos.

Poetas Velhos

Paulo Leminski

Bom dia, poetas velhos.
Me deixem na boca
o gosto dos versos
mais fortes que não farei.

Dia vai vir que os saiba
tão bem que vos cite
como quem tê-los
um tanto feito também,
acredite.

O Amor da Mentira

Charles Baudelaire

Se te vejo passar, minha cara indolente,
Ao canto de instrumentos, partido no teto,
Como donaire a fulgir, lenta e harmoniosamente,
O tédio a navegar no teu olhar inquieto;

E se eu contemplo, à luz do gás e que a colora,
Pálida fronte a arder de mórbido aparato,
Em que as tochas da tarde acendem uma aurora,
E estes olhos que atraem, como os de algum retrato,

Eu me digo: Que beleza! E que fresco vestido!
A saudade maciça – um halo de esplendor -
Coroa-a; e o coração, um pêssego ferido,
E o corpo amadurecem para o sábio amor.

És o fruto outonal de sabor soberano?
És o lacrimatório à espera de algum pranto,
Perfume de sonhar num oásis arcano,
Ramalhete de flor ou caricioso manto?

E de olhares eu sei de tristezas iníquas,
Que nada deixam ver por detrás de seus véus;
Escrínios a mofar, medalhões sem relíquias,
Mais ocos, a afundar muito mais do que os céus!

Mas não te basta ser só ilusão imensa
Para num falso coração ter tua presa?
Que importa o que há em ti, de tola indiferença?
A máscara que importa? Amo a tua beleza!

Terceiro Soneto de “Les Stupra”

Arthur Rimbaud

Franzida e obscura como um ilhós
Violeta,
Ela respira, humilde, entre a relva
Rociada
Ainda do amor que desce a branda
Rampa das
Brancas nádegas até o coração da
Greta.

Filamentos iguais a lágrimas de leite
Choraram sob o vento atroz que os
Arrecada
E os impele através de marnas
Arruivadas
Até perderem-se na fenda dos
Deleites.

Ai! Se sêsse!…

Zé da Luz

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dos se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?…
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!

Devenir, devir

Waly Salomão

Término de leitura
de um livro de poemas
não pode ser o ponto final.

Também não pode ser
a pacatez burguesa do
ponto seguimento.

Meta desejável:
alcançar o
ponto de ebulição.

Morro e transformo-me.

Leitor, eu te reproponho
a legenda de Goethe:
Morre e devém

Morre e transforma-te.

Leda Nagle entrevista Carlos Drummond de Andrade

Paisagem Campestre

Nei Lisboa / Francisco Settinneri

Eu subi pro alto da montanha
Pra ver a planície
Os homens pequeninos
A aldeia de longe, longe, longe
E pra esquecer Rosa
Principalmente pra esquecer Rosa
Mais do que tudo pra esquecer Rosa
Passaram-se meses até que uma súbita compreensão
Me arrastasse de volta ao convívio das gentes
Sujo de lama e machucado pelos pedregulhos
Ainda cheguei a tempo de ver, ora vejam
O cortejo do casamento de Rosa
Com o filho do comerciante mais próspero da região
Ah! Vidinha burra
Nunca mais subi na montanha

Medo do Escuro

Sérgio Vaz

As nuvens cinzas e pesadas
assombram tua plantação
tuas sementes assustadas
com o barulho do trovão
choram caladas
com os pés atolados no chão.
Eu estendo a mão ,
mas você não floresce
você não vêm.

No matagal o capitão-do-mato
se espalha feito joio no trigo
o pão
tem o gosto horrível da escravidão
e o chicote estrala
na tua boca vazia
que se cala.

E eu te empresto as costas,
minha pele exposta…
mas você não vem,
não dá resposta.

Uma canção doce e alegre
que fala da tua tristeza
entra pelos teus ouvidos
e você ri, e dança
em torno de si mesma
afundada em lágrimas pelo salão.
Num sussurro desafinado
imploro ao teus pés,
mas você não cansa,
é mansa
e também não vem.

A ventania
destelha teu coração.
Sem sentimento,
você ama sem amar
e de mãos dadas
caminha saltitante com a solidão,
nas ruas esburacadas
à procura de um lar.
Eu abro as portas,
mas você não vem,
é torta
não quer entrar.

A Vida dói
como uma faca enferrujada na garganta
e você,
Alice no país das maravilhas,
covarde como um leão
foge das hienas
para dentro da densa selva.

Abatida
eu lambo
tuas feridas,
mas você não vem
não cicatriza.

Uma manhã mal dormida
acorda no meio da noite
e percebe que está sem estrela.
Na ausência de sol
um vaga-lume
risca um poema
sob a névoa trêmula
que vai além.

Você não lê,
não vem,
mas está escrito:
” eu tenho medo também.”

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