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Desgosto na Assembléia Legislativa

Roberto Bittencourt

Que sumam todos

que cada um parta
pela porta de sua
morte
que teima o tempo

que se danem como vozes erguidas
às teias mofosas dos deuses hirtos
que se fundam aos poucos
com o restolho de suas taras

que sumam todos

que cada um solto
pelo salto da sua
morte
seja embalsamado

De Outras Sei

Olavo Bilac

De outras sei que se mostram menos frias,
Amando menos do que amar pareces.
Usam todas de lágrimas e preces:
Tu de acerbas risadas e ironias.

De modo tal minha atenção desvias,
Com tal perícia meu engano teces,
Que, se gelado o coração tivesses,
Certo, querida, mais ardor terias.

Olho-te: cega ao meu olhar te fazes …
Falo-te — e com que fogo a voz levanto! —
Em vão… Finges-te surda às minhas frases…

Surda: e nem ouves meu amargo pranto!
Cega: e nem vês a nova dor que trazes
À dor antiga que doía tanto!

“E eu pensava que ouviria a palavra amor com mais frequência que a palavra trabalho.
Mas a palavra trabalho surgio em momentos que eu não esperava. No instante em que se curva uma mulher seminua, diz-se: Senhorita, ao trabalho.”

Jean-Luc Godard

No Meio da Noite

Adélia Prado

Acordei meu bem pra lhe contar meu sonho:
sem apoio de mesa ou jarro eram
as buganvílias brancas destacadas de um escuro.
Não fosforeciam, nem cheiravam, nem eram alvas.
Eram brancas no ramo, brancas de leite grosso.
No quarto escuro, a única visível coisa, o próprio ato de ver.
Como se sente o gosto da comida eu senti o que falavam:
“A ressureição já está sendo urdida, os tubérculos
da alegria estão inchando úmidos, vão brotar sinos.”
Doía como um prazer.
Vendo que eu não mentia ele falou:
as mulheres são complicadas. Homem é tão singelo.
Eu sou singelo. Fica singela também.
Respondi que queria ser singela e na mesma hora,
singela, singela, comecei a repetir singela.
A palavra destacou-se novíssima
como as buganvílias do sonho. Me atropelou.
O que foi? — ele disse.
— As buganvílias…
Como nenhum de nós podia ir mais além,
solucei alto e fui chorando, chorando,
até ficar singela e dormir de novo.

Nerd

Ana Paula Ganzaroli

Você sabe que é nerd se usa óculos. Todo nerd usa, se não usa, não é nerd.

Você sabe que é nerd se gostava muito, mas muito, mas tanto que chegava a doer de português e/ou matemática. Você fazia a tarefa mínima e a tarefa complementar da escola com os pés nas costas.

Você sabe que é nerd se passava cola na escola. Se os seus “colegas” se tornavam amigos no dia “D” e se o seu professor te isolava nas provas finais.

Você sabe que é nerd se tem rinite. Todo nerd tem, é uma lástima. Não sei explicar se é por conta da conjuntura dos planetas, ou por mera falência parcial dos seus glóbulos brancos e ou por mera teoria darwiniana

Você sabe que é nerd se fala em glóbulos brancos e Darwin e se gosta de ir à biblioteca, do cheiro dela, dos livros de lá, mas principalmente, das pessoas que lá frequentam.

Você sabe que é nerd se antes de experimentar drogas foi ler um livro para saber o efeito e dependência que cada uma causaria em seu organismo e para não trocar gato por lebre.

Você sabe que é nerd se gosta de Machado de Assis.

Você sabe que é nerd se descobre o sexo primeiro pelos livros, depois pela tv, depois pelos amigos e só por último, na “vida real”.

Você desconfia que seja nerd se for o último a perder a virgindade. Se você troca uma saída com seus amigos para assistir a um documentário super legal no History Chanel.

Você sabe que é nerd se sua mãe voltava orgulhosa da reunião de pais e mestres, e exibia o seu boletim com um beijo na bochecha e com a promessa de um presente fora de época.

Você sabe que é nerd se imagina um verso para a pessoa amada ou se faz declarações de amor cheias de poesia, ainda que nunca vá às vias de fato.

Você sabe que é nerd se lê vários livros por ano, mas ainda assim se culpa, porque a sua lista de livros-memoráveis-para-ler-antes-de-morrer, não pára de crescer.

Você percebe que virou um nerd se faz listas de compras, pior, se faz orçamento mensal, pior ainda, se faz orçamento anual, e tem duas previdências privadas. Tudo é sempre muito planejado porque o nerd tem medo de arriscar.

Você percebe que é nerd se ficou envergonhado por ter respondido muitas vezes com um “sim” ao ler o texto.

Mas veja, não fique triste, e nem se ache excluído ou parte das minorias que viraram feriado nos calendários, eu descobri que sou uma nerd também.

Vale lembrar que sempre vai ter um (a) nerd por perto. Preste atenção quando alguém fizer “atchim”, se for bonito (a) e usar óculos, comece a treinar os versos e poemas. Ela (ele) vai adorar, afinal, os nerds também amam, e ainda declamam Drummond.

Ritchie – Playlist

Playlist do cantor Ritchie – http://www.ritchie.com.br


Casa de Fados – Centro Cultural àCapella em Coimbra

Verdes Anos de Carlos Paredes por Quinteto de Coimbra, com a participação especial de Belle Chase Hotel

Coimbra Menina e Moça por Quinteto de Coimbra, com a participação especial da Estudantina Universitária de Coimbra

Variações Em Lá Maior de João Bagao por Quinteto de Coimbra

Traz Outro Amigo Também de José Afonso por Quinteto de Coimbra, com a participação especial de Vitorino

Para conhecer melhor o Centro Cultural àCapella e sobre o projeto Casa de Fados acesse o site http://www.acapella.com.pt

Grávida Porém Virgem

Dalton Trevisan

Na volta da lua-de-mel, Maria em lágrimas confessou à mãe que ainda era virgem.

Lembrava dona Sinhara como o noivo se apresentou pálido na igreja, por demais nervoso? Justificou que, filho amoroso, muito se afligia com a mãe doente. No ônibus, a mão suada, e esquecido da noiva, olhava a paisagem.

Primeira noite o varão fracassou vergonhosamente. Foi alegada inexperiência. A estranha palidez na igreja de violenta crise nervosa — a mãe tinha saúde perfeita. Maria iludiu-se que era desastre passageiro. Ai dela, assim não foi: noite após noite João repetiu o fiasco. Arrenegava-se de trapo humano, não tomava banho nem fazia a barba. A pobre moça buscou recuperá-lo para os deveres de estado. Uma noite, envergando a capa pijama, saiu de óculo escuro, a noite inteira entregue às práticas do baixo espiritismo.

— O que me conta, minha filha! Me nego a acreditar. João, um rapaz tão simples, tão dado… Dona Sinhara evocava o noivo delicado e de fina educação.

— É para a senhora ver, mãe!

Dia seguinte ao casamento um tipo esquisito, que vivia aflito. Uma feita e outra feita, submeteu a moça a provas de intimidade, as quais não foram além do ensaio.

Mais que se enfeitasse para agradá-lo, indiferente aos encantos de Maria. De vez em longe, sem resultado, perseguia o impossível ato. Depois a acusava de única culpada. Suspeitando-a de traição com o primeiro noivo, agredida a bofetão e pontapé:

— Tem de apanhar bastante, Maria. Você é uma histérica!

Proibida de pintar a olho, tingir o cabelo, usar saia curta e calça comprida, sem que ele chegasse a conhecer a noivinha.

Pretendia arrastá-la ao suicídio a fim de esconder o seu desastre. Em provocação soprava-lhe no rosto a fumaça do cigarro.

Com a brasa queria marcar-lhe a bochecha para que deixasse de ser vaidosa.

— Por que judia de mim, querido?

— Bem sabe por que, sua cadela!

E, quarenta dias de casada, vinte em viagem e vinte em casa, ali estava Maria, a mais inteira das donzelas.

— Ter uma conversa com esse sujeitinho — bradou furiosa dona Sinhara.

Não era tudo: comprou coleção de fotos pornográficas, obrigada a admirá-las uma por uma. Nem assim prestou-se aos caprichos do noivo — eram quadros imundos e pecaminosos. Suspendendo pelo cabelo ou afogando a garganta, ele a constrangia às suas loucas fantasias. Saciado, era jogada ao chão, dali erguida aos bofetões.

— Ah, o teu pai que saiba… – persignou-se dona Sinhara.

Na volta da lua-de-mel, João em lágrimas confessou à mãe que a noiva não era pura. Desde a primeira noite, mais carinhoso que fosse, acusava-o de trair o seu ideal. Sá havia casado para se livrar dos pais e merecer o título de esposa.

— Por que judia de mim, querida?

— Você não soube ganhar o meu amor.

Ao exigir satisfações, ouviu dela que tinha caspa na sobrancelha. Censurava-o por deixá-la fria e manifestava repulsa física. Se insistia em tomá-la nos braços, atacada dos nervos, atirava-se ao chão em convulsões. Para reanimá-la, sacudia-a gentilmente, batia de leve no rosto.

Não era a ele que amava e sim ao primeiro noivo, de quem se separou por exigência dos pais. Três dias antes do casamento, estivera com a mãe na casa de Joaquim, propusera com ele fugir, mas o outro respondeu que era tarde. Além do mais, segunda dona Sinhara, todos os convites já distribuídos.

Não queria confessar, abrigada revelava toda a verdade — somente nojo sentia por ele, os seus dentes eram amarelos:

— Depois que me beija tenho de cuspir três vezes!

Não saía do espelho, olho pintado, de saía curta ou calça comprida, o cabelo retinto de loiro:

— Nasci para artista. Não mulher de você, una pobretão!

Reclamando de sua presença no leito conjugal, implicava com o assobio do nariz torto de João:

— Vai você ou vou eu para a sala?

Por ter comido salada de cebola — lembrava-se a mãezinha de como gosta de bife sangrento? — forçado a dormir no sofá.

— O que me conta, meu filho! Me nego a acreditar. Maria, moça tão querida, tão dada… Educada no colégio de freiras, toda cuidados com a futura sogra: um beijinho aqui, um abracinho ali.

— É para ver, mãe! Usa roupa de baixo que a senhora não imagina…

Se não a deixasse em paz, Maria acabava seus dias: engolindo vidro moído, escrevia com batom no espelho que era o culpado. Tal intriga fizera para os sogros que, ao visitá-la, conversavam apenas com a filha, nem cumprimentavam o pobre rapaz, como se ausente estivesse. Uma tarde surgiu-lhe o sogro porta adentro, bradando que recolhera a moça descabelada. Queria saber o que lhe fizera para que ficasse tão chorosa. Se era verdade que lhe marcava a coxa, com brasa de cigarro, se lhe surrupiava o dinheiro da bolsa, se ao sair de casa apagava todas as luzes. Sem esperar a resposta, berrou que tinha mais duas filhas para casar e bateu a porta.

— Ter uma conversa com essa sujeitinha — acudiu furiosa dona Mirazinha, com a mão no peito, sofria de palpitação.

Qual a sua surpresa: a náusea da noiva era… de estar…

— Grávida?! — espantou-se dona Sinhara. — Grávida, apesar de virgem?

O incrível resultado de um ato falho do noivo, segundo Maria, tanto bastou para a concepção.

— Grávida?! — surpreendeu-se dona Mirazinha. — E ainda pretende que é virgem?

— Para a senhora ver, mãe, quem ela é. Após a confissão do filho, Maria foi visitada pela sogra:

— Eu vivo para Cristo. Não para o imundo de seu filho!

Após a confissão da filha, João recebeu a visita de dona Sinhara, que se instalou na companhia dos noivos. A moça não deu a menor atenção a João assim não fosse o rei da família. Ele passava o dia no trabalho e, de volta, queria certa liberdade: lá estava a maldita sogra. Negando-se a moça a ir para o quarto, ficavam bocejando na sala diante da televisão, até que dona Sinhara os mandava dormir. Ele não exercia poder sobre a noiva: nem bife sangrento nem cebola na mesa.

Bem desconfiou que ela era amante da própria tia Zezé. Revoltou-se contra a atitude da noiva que, instigada pela mãe, se negava a cumprir o dever conjugal, arrependida de ter casado tão novinha quando podia aproveitar a vida.

Sempre na casa do pai, Maria confidenciava que João dormia a manhã inteira. À tarde, em vez de ir para o emprego, escondido na esquina, espiava se a pobre moça não recolhia o ex-noivo Joaquim. Mostrava uma folha em branco, exigia lhe revelasse o que estava escrito, eram palavras em tinta invisível — bom pretexto para tentar esganá-la a toda custo.

Existe um motivo para o noivo sentir ciúme, pensou dona Sinhara, é não ser o rei da casa. Bradou para Deus e o mundo que João não era homem bastante para sua filha.

O moço confidenciou para a mãe que, na tarde anterior, entrara a noiva batendo a porta (ó família que tanto bate a porta) e gritando bem alto:

— Fomos a uma parteira. Ela provou que sou virgem!

O pobre rapaz discutiu com o sogro que era detalhe para ser esclarecido.

— Quantos anos você tem, João?

— Vinte e três, sim senhor.

— Com essa idade, João, não sente vergonha de uma esposa virgem?

— Virgem, porém grávida.

O velho indignado exigiu a filha de volta. Respondeu João que Maria estava muito bem com ele. O sogro berrou que se retirasse imediatamente, e a partir daquele dia, proibido de pisar nos seus domínios.

Dona Mirazinha perguntou a uma amiga:

— Como vai a grande cadela?

Porque a chamava de cadela, Maria nunca mais foi visitá-la.

Cada um se queixa do outro para a respectiva família. Ora, a família de Maria está ao lado dela. E a família de João ao lado dele. Casados de três para quatro meses e Maria, segundo ela, sempre virgem. Como pode ser, contesta João, se está grávida?

Um mistério que até hoje não foi decifrado.

Entrevista – Mário Prata

Me Devolva o Neruda (Que Você Nem Leu)

Mario Prata

Quando o Chico Buarque escreveu o verso acima, ainda não tinha o ‘que você nem leu’. A palavra Neruda – prêmio Nobel, chileno, de esquerda – era proibida no Brasil. Na sala da Censura Federal o nosso poeta negociou a proibição. E a música foi liberada quando ele acrescentou o ‘que você nem leu’, pois ficava parecendo que ninguém dava bola para o Neruda no Brasil.Como eram burros os censores da ditadura militar! E coloca burro nisso!!!

Mas a frase me veio à cabeça agora, porque eu gosto demais dela.Imagine a cena. No meio de uma separação, um dos cônjuges (me desculpe apalavra) me solta esta: me devolva o Neruda que você nem leu! Pense nisso.

Pois eu pensei exatamente nisso quando comecei a escrever esta crônica, que não tem nada a ver nem com o Chico, nem com o Neruda e, muito menos, com os militares.

É que eu estou aqui para dizer um tchau. Um tchau breve porque, se me aceitarem – você e o diretor da revista -, eu volto daqui a dois anos. Vouaté ali escrever uma novela na Globo (o patrão vai continuar o mesmo) e depois eu volto. Esperando que você já tenha lido o Neruda.

Mas aí você vai dizer assim: pô, escrever duas crônicas por mês, fora a novela, o cara não consegue? O que é uma crônica? Uma página e meia.Portanto, três páginas por mês e o cara me vem com esse papo de Neruda?Preguiçoso, no mínimo.

Quando faço umas palestras por aí, sempre me perguntam o que é necessário para se tornar um escritor. E eu sempre respondo: talento e sorte. Não necessariamente nessa ordem. Sou um homem de sorte. Entre os 10 e 20 anos, recebia na minha casa O Cruzeiro, Manchete e o jornal Última Hora.E lá dentro eu lia (me invejem): Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino, Millôr Fernandes, Nelson Rodrigues, Stanislaw Ponte Preta, Carlos Heitor Cony. E pensava, adolescentemente: quando eu crescer, vou ser cronista.

Bem ou mal, consegui meu espaço. E agora, ao pedir de volta o livro chileno, fico pensando em como eu me sentiria se, um dia, um desses aí acima escrevesse que iria dar um tempo. Eu matava o cara! Isso não se faz com o leitor (desculpe, minha amiga, não estou me colocando no mesmo nível deles,não)!

E deixo aqui uns versinhos do Neruda para as minhas leitoras de 30 e40 anos (e para todas):

”Escuchas otras voces em mi voz dolorida

Llanto de viejas bocas, sangre de viejas súplicas,

Amame, compañera. No me abandones. Sigueme,

Sigueme, compañera, em esa ola de angústia.

Pero se van tiñendo com tu amor mis palabras

Todo lo ocupas tú, todo lo ocupas

Voy haciendo de todas um collar infinito

Para tus blancas manos, suaves como las uvas.”

Desculpe o mau jeito: tchau!

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