Eu gosto de fechar os olhos e pensar em você grelhando um filé de frango.
Sabe aquele frango, que você fazia com gengibre? Leve toque de mostarda? Delicioso, picante, nem se via que era frango? Pois é, gosto de fechar os olhos e pensar em você passando ele na chapa, dourando um lado de cada vez, fazendo aquele fumacê sensual na cozinha. É uma visão meiga, me enche de paz e me faz salivar, no melhor e menos metafórico dos sentidos.
Acho que percebi que você seria uma coisa estupidamente inesquecível num dia como esses em que se grelham peitos de frango às três da manhã. Lembra? Uma vez foi assim, refeição feliz na madrugada. Você estava sempre com um sorriso no rosto, mesmo com sono. Estava sempre disposto a preparar uma comidinha para alguém mesmo que a matéria prima estivesse congelada. Naquela época, o alguém era eu.
Você me fez ser dessas que gostam de homens que preparam coisas. Que amassam frutas para fazer caipirinhas, parafusam buchas para colocar o pendurador de toalha, instalam fios de extensão para o DVD e assam pães de canela, tudo com o mesmo appeal.
Hoje fechei os olhos e pensei em você cozinhando com aquela camiseta que eu achava curta e que você amava. Você, de camiseta curta fazendo um franguinho, e eu, disfarçando a vontade de assumir o controle do fogão e sumir com aquele trapo velho que você vestia. Fico feliz de nunca ter feito isso. Imagine, não lembrar disso, que dó?
Teve aquele tempo em que a gente ainda não se conhecia. Tempo besta, o mundo era só um lugar abandonado e sem frangos. Ninguém nunca tinha grelhado nada no meio da madrugada para mim. Ainda não havia essas memórias, eu só me lembrava de coisas pouco importantes, como miojo e sucrilhos.
Mas um dia, então, você resolveu que adorava o cheiro de baunilha da minha casa e os meus guardanapos desenhados. E você achava que aquele carinho que eu fazia na sua testa, perto das têmporas, era a sobremesa perfeita. Isso, somado à visão de você preparando a caipirinha, grelhando um frango e me ajudando com as buchas e parafusos de casa, foram as coisas que me fizeram crer que talvez nada mais significativo viesse, um dia, a perfumar de gengibre as minhas memórias. Você sabe… Nada como memórias que cheiram a gengibre…
Agora, por exemplo, são onze da noite. Você deve estar preparando alguma coisinha para alguém.
Penso na sua risada doce e vem de novo aquela certeza de que talvez você fosse o homem quase perfeito.
Não fosse aquela camiseta curta e horrorosa, talvez você fosse.
No melhor e menos metafórico dos sentidos.
Na inocência de seus vinte anos, ela me olhou intrigada: “berço de quê?” Só então eu refleti que mata-borrão é uma palavra forte (até violenta) e feia. Trata-se de um papel que serve para absorver tinta. Normalmente a gente o usava para secar a escrita, pois a tinta com que escrevíamos custava a secar. Quanto ao berço, era uma peça à qual se prendia o mata-borrão, para mais fácil manuseio. Dadas estas explicações à juventude contemporânea, devo dizer que era isso o que faltava a uma certa Loura dolicocéfala, ou talvez a uma Virgem de dezoito quilates, personagem de Pitigrilli, quando acabou de escrever um bilhete para o novo amante e não tinha como fazer secar as letras. Fez o seguinte: abriu uma urna em que estavam as cinzas de seu antigo amante, e as utilizou para aquele fim.
No Livro dos Insultos, de H. L. Mencken, seleção e tradução de Ruy Castro, há uma referência a Ambrose Bierce: “Certa vez tive a curiosa experiência de ir a um funeral com ele… Contou histórias de crematórios que pegaram fogo e feriram os parentes do defunto; de bêbados mortos cujos restos explodiram; de viúvas vigiando o fogo a noite inteira para se certificar de que seus falecidos maridos não iriam escapar…”.
Há muito tempo a Santa Casa anuncia que vai construir um crematório. Liguei para lá e perguntei a respeito. Alguém respondeu que o crematório já estava construído no Cemitério São João Batista; esperavam apenas ordem do prefeito para fazê-lo funcionar. Liguei para o gabinete do prefeito, e lá me deram o telefone do presidente da Comissão de Cemitérios, um senhor extremamente gentil e com uma voz nada fúnebre. Ele disse que não, não havia crematório algum. Explicou que este era para ser construído no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, mas a Santa Casa aparecera com um novo projeto; fazer o forno no alto do morro atrás do Cemitério São João Batista, uma encosta muito íngreme, que exigiria obras de contenção; também seria preciso deslocar várias famílias carentes que lá vivem.
Não se justifica, portanto, a mudança do local. Esta era sua opinião, mas cabia ao prefeito decidir. Voltei a ligar para a Santa Casa, e desta vez me informaram que o crematório “estava em construção”. Perguntei então se a Santa Casa se encarregava de pegar o corpo e levá-lo para o Crematório de São Paulo e como seria feito o transporte. Em uma Kombi, responderam; a não ser que eu combinasse o transporte com alguma empresa aérea.
Eu disse que queria saber os preços desse serviço, e então me disseram para ligar para a garagem, e ali me foi perguntado onde estava o corpo. Respondi que estava em Ipanema, e então o homem disse que de Kombi o transporte para São Paulo ficaria em 350 cruzados. Achei barato demais, mas o homem insistiu em que o preço que ele sabia era este; quanto ao custo da cremação, era melhor eu ligar diretamente para São Paulo.
Liguei. O homem lá disse que o serviço, com a urna, ficaria em 45 mil cruzados. Não, não aceitavam Cartão Nacional nem da Golden Cross. Na verdade há muitos anos escrevi uma crônica dizendo que queria ser cremado, e que minhas cinzas fossem jogadas discretamente da Ponte Municipal de Cachoeiro, no rio Itapemirim, já tão poluído que isso não o alteraria muito. Mas aí apareceu aquele filme La nave va, de Fellini, e minha idéia se tornou um tanto ridícula, como a da cantora lírica que desejava ter suas cinzas jogadas em alguma parte do Adriático.
Esqueci de contar que o sujeito da Santa Casa perguntou-me se o corpo já estava preparado para o funeral. Acanhado, eu não lhe disse que ainda me faltava morrer.
Então a moça de vinte anos disse: “Ah, já sei, eu vi isto na mesa de meu avô. É uma coisa para carimbar batendo assim, não é?”.
Você sumiu, se foi…
Nem me chamou, não sei dançar
Logo eu percebi, tanto você gostou
E eu nunca quis, quis me prender
Na imensidão de um pensamento,
Num só momento de indecisão
Vai ver você não foi
E me enganou, não sei dançar
Logo eu percebi, tanto você gostou
E eu nunca quis, quis me perder
Na imensidão de um pensamento,
Num só momento de indecisão
O novo do layout foi desenvolvido para melhorar tanto na leitura como na manutenção. Toda a página foi redesenhada – ainda que baseada no layout anterior.
Foram repensadas as cores das letras melhorando o contraste, o que cansa menos a vista tornando mais agradável a leitura.
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O vermelho agora faz parte do blog. Afinal, ele estava precisando de uma cor diferente das que vão do branco passando pelas tonalidades de cinza até o preto.
O Google Friend Connect desceu! É… agora ele está lá no rodapé (O que não vai fazer diferença nenhuma).
É basicamente isso. Espero que tenha agradado a você também. Caso queira me dizer alguma coisa é só clicar em CONTATO ou COMENTAR.
Ao viajar no tempo, leve sempre um relógio. Ninguém leva a sério um viajante do tempo que não chega no horário.
Cuidado! O rio do tempo tem muitos afluentes. Se você pegar o Rio Negro e o Solimões por engano, vai acabar num universo paralelo dominado por cantores sertanejos.
Lembre-se de não criar paradoxos. Digamos, por exemplo, que você volta no tempo e mata a sua avó. Quando chegar ao presente, seu avô estará morando no puteiro, mas você vai deixar de existir, o que é muito chato – especialmente se a gostosa do marketing finalmente resolveu dar pra você.
Uma vez no passado, não coma sua mãe. Além de ficar meio pro retardado automaticamente, todo mundo vai te chamar de “modafuca”. Você só vai arrumar emprego em filme do Quentin Tarantino ou em clássico do teatro grego.
A Grécia Antiga é o lugar ideal para aprender conceitos filosóficos. O problema é conseguir sentar no dia seguinte. Mas se você é uma pessoa aberta e livre de preconceitos, visite a decadente Roma de Nero. Só não esqueça de tirar o adesivo “Sou feliz porque sou católico” da traseira da máquina do tempo.
Fanáticos religiosos e sado-masoquistas serão mais felizes na Idade das Trevas, também indicada a quem sofre de fotofobia. Mas saiba também que o futuro a deus pertence. Quando avançar rumo ao futuro, desvie dos homens-bomba.
O turista temporal deve tomar cuidado para não se perder. Se você decidiu visitar o Brasil antes de Cabral e desembarcou num lugar idílico, povoado por nobres e bons selvagens que vivem numa utopia socialista, cuidado! – você provavelmente está num samba-enredo.
Fique atento à moda. Se todos usam macacões prateados, você está no futuro. Se todos são macacões mal encarados, você está no passado. Ou no futuro. Verifique se o Charlton Heston está por perto.
Charles Darwin estava certo. Quanto mais para o passado você for, maior a possibilidade de trombar com amebas. Ora, economize dinheiro e vá pra Brasília!
“Liberdade não vem de correr atrás de ‘deveres’ impostos de fora, mas de construir a nossa existência”
Comecei a escrever um novo livro, sobre os mitos e mentiras que nossa cultura expõe em prateleiras enfeitadas, para que a gente enfie esse material na cabeça e, pior, na alma – como se fosse algodão-doce colorido. Com ele chegam os medos que tudo isso nos inspira: medo de não estar bem enquadrados, medo de não ser valorizados pela turma, medo de não ser suficientemente ricos, magros, musculosos, de não participar da melhor balada, do clube mais chique, de não ter feito a viagem certa nem possuir a tecnologia de ponta no celular. Medo de não ser livres.
Na verdade, estamos presos numa rede de falsas liberdades. Nunca se falou tanto em liberdade, e poucas vezes fomos tão pressionados por exigências absurdas, que constituem o que chamo a síndrome do “ter de”. Fala-se em liberdade de escolha, mas somos conduzidos pela propaganda como gado para o matadouro, e as opções são tantas que não conseguimos escolher com calma. Medicados como somos (a pressão, a gordura, a fadiga, a insônia, o sono, a depressão e a euforia, a solidão e o medo tratados a remédio), cedo recorremos a expedientes, porque nossa libido, quimicamente cerceada, falha, e a alegria, de tanta tensão, nos escapa.
Preenchem-se fendas e falhas, manchas se removem, suspendem-se prazeres como sendo risco e extravagância, e nos ligamos no espelho: alguém por aí é mais eficiente, moderno, valorizado e belo que eu? Alguém mora num condomínio melhor que o meu? Em fileira ao longo das paredes temos de parecer todos iguais nessa dança de enganos. Sobretudo, sempre jovens. Nunca se pôde viver tanto tempo e com tão boa qualidade, mas no atual endeusamento da juventude, como se só jovens merecessem amor, vitórias e sucesso, carregamos mais um ônus pesadíssimo e cruel: temos de enganar o tempo, temos de aparentar 15 anos se temos 30, 40 anos se temos 60, e 50 se temos 80 anos de idade. A deusa juventude traz vantagens, mas eu não a quereria para sempre: talvez nela sejamos mais bonitos, quem sabe mais cheios de planos e possibilidades, mas sabemos discernir as coisas que divisamos, podemos optar com a mínima segurança, conseguimos olhar, analisar e curtir – ou nos falta o que vem depois: maturidade?
Parece que do começo ao fim passamos a vida sendo cobrados: O que você vai ser? O que vai estudar? Como? Fracassou em mais um vestibular? Já transou? Nunca transou? Treze anos e ainda não ficou? E ainda não bebeu? Nem experimentou uma maconhazinha sequer? E um Viagra para melhorar ainda mais? Ainda agüenta os chatos dos pais? Saiba que eles o controlam sob o pretexto de que o amam. Sai dessa! Já precisa trabalhar? Que chatice! E depois: Quarenta anos ganhando tão pouco e trabalhando tanto? E não tem aquele carro? Nunca esteve naquele resort?
Talvez a gente possa escapar dessas cobranças sendo mais natural, cumprindo deveres reais, curtindo a vida sem se atordoar. Nadar contra toda essa louca correnteza. Ter opiniões próprias, amadurecer, ajuda. Combater a ânsia por coisas que nem queremos, ignorar ofertas no fundo desinteressantes, como roupas ridículas e viagens sem graça, isso ajuda. Descobrir o que queremos e podemos é um bom aprendizado, mas leva algum tempo: não é preciso escalar o Himalaia social nem ser uma linda mulher nem um homem poderoso. É possível estar contente e ter projetos bem depois dos 40 anos, sem um iate, físico perfeito e grande fortuna. Sem cumprir tantas obrigações fúteis e inúteis, como nos ordenam os mitos e mentiras de uma sociedade insegura, desorientada, em crise. Liberdade não vem de correr atrás de “deveres” impostos de fora, mas de construir a nossa existência, para a qual, com todo esse esforço e desgaste, sobra tão pouco tempo. Não temos de correr angustiados atrás de modelos que nada têm a ver conosco, máscaras, ilusões e melancolia para aguentar a vida, sem liberdade para descobrir o que a gente gostaria mesmo de ter feito.
A poesia anda mofina,
Mofina, mas não morreu.
Foi o anjo que morreu:
Anjo não se usa mais.
Ainda se usa estrela
Se usa estrela demais.
Poeta religioso
Mocinha não pode ler:
Pecará em pensamento,
Que o poeta gosta do Novo,
Mas pilha seus amoricos
É no Velho Testamento.
Ai, o Velho Testamento!
Eu também faço poema,
Ora essa, quem não faz:
Boto uma estrela na frente
E um pouco de mar atrás.
Boto Jesus de permeio
Que Deus, nos pratos de amor,
É um excelente recheio.
E isso bem posto e disposto
Me vou aos peitos da Amada:
Sulamita, Sulamita,
Por ti eu me rompo todo,
Sou cavalheiro cristão.
Minh’alma está garantida
Num rodapé do Tristão
E o corpo? O corpo é miséria,
Peguei doença, mas Jorge
de Lima dá injeção!
O badalo está chamando,
Bão-ba-la-lão.
Amada, não vai lá não!
Eu também tenho badalos –
Bão-ba-la-lão
Eu sou poeta cristão!
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