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Poeta Cristão

Rubem Braga

A poesia anda mofina,
Mofina, mas não morreu.
Foi o anjo que morreu:
Anjo não se usa mais.
Ainda se usa estrela
Se usa estrela demais.

Poeta religioso
Mocinha não pode ler:
Pecará em pensamento,
Que o poeta gosta do Novo,
Mas pilha seus amoricos
É no Velho Testamento.

Ai, o Velho Testamento!
Eu também faço poema,
Ora essa, quem não faz:
Boto uma estrela na frente
E um pouco de mar atrás.

Boto Jesus de permeio
Que Deus, nos pratos de amor,
É um excelente recheio.
E isso bem posto e disposto
Me vou aos peitos da Amada:
Sulamita, Sulamita,
Por ti eu me rompo todo,
Sou cavalheiro cristão.
Minh’alma está garantida
Num rodapé do Tristão
E o corpo? O corpo é miséria,
Peguei doença, mas Jorge
de Lima dá injeção!

O badalo está chamando,
Bão-ba-la-lão.

Amada, não vai lá não!
Eu também tenho badalos –
Bão-ba-la-lão
Eu sou poeta cristão!

Velhinha

Florbela Espanca

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente para mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
“Já ela é velha! Como o tempo passa”!…”

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente…
Já murmuro orações… falo sozinha…

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos…

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Entrevista – Tim Maia

Convenção Comigo Mesmo

Mário Prata

RECANTO DAS TONINHAS – Terminado o livro, dei-me o direito de uma semana na praia. Não sem antes passar no contador, o clássico Nivaldo, para o acerto anual com os impostos. E, todo ano, eu tenho vontade de não declarar, sonegar mesmo! E você vai me dar razão.

Sabe aquela lista imensa de profissões? Lá não tem a minha. Portanto, para o Brasil, eu não existo. Tem profissão lá que eu nem sei o que o cara pode fazer. Mas, escritor, que é bom, não tem. Então, se a minha profissão não existe para a União, eu também não existo. Certo? E querem que eu declare que existo e mais, que pague tudo direitinho.

Mas declarei tudo direitinho. Os depósitos no exterior em dólares (como os deputados, profissionais), aquele dinheirinho que eu recebi por fora, não declarei. Estou lavando ele para comprar uma cobertura em Miami. Desde que meu genro não fique sabendo.

O dinheiro que eu extorco (fui ao dicionário ver se era assim ou estorquo e, pasmo, descobri que o verbo extorquir não se conjuga na primeiro pessoa do singular – já, no plural, sim. Só se for no Primeiro Mundo porque aqui USA no singular, sim), o dinheiro que eu extorco do cara que tem uma banca lá na frente da minha casa, também não declarei. Muito menos a ajuda de moradia e roupas que a ABL me fornece anualmente, declarei. Nem o carro para levar os meus filhos à escola, eu declarei. O resto, a arraia miúda – como diriam aqui na praia -, tá tudo lá. Claro que o apartamento a um preço mais baixo, o carro idem e quase menti sobre gastos médicos, que eu pago todo mês, mas sempre que preciso, exatamente aquilo, eles não pagam. Com você também não é assim? Admiro muito a esperteza (a curto prazo) do povo brasileiro.

Venho aqui para o hotel e, quando escrevo no papelzinho da entrada profissão escritor, leio o pensamento da simpática recepcionista: metido…

Estou aqui rodeado de convenções. Hoje de manhã uma mocinha, bem convencional, de uma convenção de informática, me perguntou de qual convenção eu era. Disse que era da convenção dos escritores e senti que ela não acreditou. Tentei uma segunda: estou em convenção comigo mesmo. Ela não entendeu. Tá difícil o nível aqui, como convém.

Sei que não é nada convencional ficar na beira da praia bisbilhotando convenções alheias. Mas sou um profissional, já disse. Profissional da curiosidade. Tenho curiosidade por essas pessoas que conseguem trabalhar juntas. Ficam lá na salinha ouvindo o chefe ensinar, pasmas. Como prestam atenção! Tem tanta coisa boa pra se aprender na vida e ela aprendendo logo aquilo? Será que quando ela voltar, ainda com o barulho do mar lá fora, vai perguntar para o namorado, toda cheia de sabedoria: – Você sabe o que aconteceu com o Dow Jones? E se o namorado disser que nem sabe quem é esse sujeito, vai dançar. As convenções existem é pra isso.

Como seria uma convenção de escritores? Uma fogueira de vaidades? Testemunhas de acusação? Um álbum de família? A mãe? O filho pródigo? Um encontro marcado? Um jogo de amarelinha? Uma alquimia? Ou seria uma utopia e uma peste?

Estou aqui brincando comigo mesmo e com você, mas a coisa é séria. Os escritores precisam começar a se organizar pra alguém perceber que a gente existe. Outro dia o Fantástico (da Globo!) me pediu para escrever um texto na “base da colaboração”, o Clube Atlético Paulistano me convidou para uma palestra, mas não podia ir de tênis. Nem para assistir. Não fui. Enfim, ninguém respeita o escritor. Portanto, fica aqui uma convocação para uma convenção anual de escritores. Será que a Academia Brasileira de Letras ou a Câmara do Livro não podiam reservar um hotel cinco-estrelas para a gente se reunir e, pelo menos, contar quem a gente tá namorando?

Fico imaginando ali na sala de baixo o João Ubaldo, o Veríssimo, o Lauro César, o Fernando Sabino, o Ziraldo, o Fernando Morais, o Chico Buarque, a Patrícia Mello, a Stella Florence, o Millôr Fernandes, a Regina Rheda, a Lygia Fagundes Telles, eu e mais tantos a discutir sabe o quê? O índice Dow Jones. E, depois, mandando uma carta para o meu querido Everardo Maciel pedindo que coloque a nossa profissão lá e – sou brasileiro – nos isente. Nos isente, meu querido, de passar esta vergonha de não sermos considerados escritores em nosso próprio País. O Saramago já provou ao mundo – com uma certa pasmaceira, mas provou – que a nossa língua existe. E paga Imposto de Renda.

Morro de vergonha de ser apenas um assemelhado escrivinhador.

Ainda Bem Que O Tempo Passa

Nicolas Behr

pra alcina

você se lembra? era neste quarto,
na casa dos seus pais,
que namorávamos ouvindo
joni mitchell e egberto gismonti

você era uma das ladies
of the canyon e eu o seu palhaço

hoje estamos dormindo neste
quarto novamente, com nossos
três filhos, nossa família

deus abençoe
a nossa família e a sua

Que Se Chama Solidão

Lygia Fagundes Telles

Chão da infância. Algumas lembranças me parecem fixadas nesse chão movediço, as minhas pajens. Minha mãe fazendo seus cálculos na ponta do lápis ou mexendo o tacho de goiabada ou ao piano; tocando suas valsas. E tia Laura, a viúva eterna que foi morar na nossa casa e que repetia que meu pai era um homem instável. Eu não sabia o que queria dizer instável mas sabia que ele gostava de fumar charutos e gostava de jogar. A tia um dia explicou, esse tipo de homem não consegue parar muito tempo no mesmo lugar e por isso estava sempre sendo removido de uma cidade para outra como promotor. Ou delegado. Então minha mãe fazia os tais cálculos de futuro, dava aquele suspiro e ia tocar piano. E depois, arrumar as malas.

— Escutei que a gente vai se mudar outra vez, vai mesmo? perguntou minha pajem Maricota. Estávamos no quintal chupando os gomos de cana que ela ia descascando. Não respondi e ela fez outra pergunta: Sua tia vive falando que agora é tarde porque a Inês é morta, quem é essa tal de Inês?

Sacudi a cabeça, não sabia. Você é burra, Maricota resmungou cuspinhando o bagaço. Fiquei olhando meu pé amarrado com uma tira de pano, tinha sempre um pé machucado (corte, espinho) onde ela pingava tintura de iodo (ai, ai!) e depois amarrava aquele pano. No outro pé, a sandália pesada de lama. Essa pajem era uma órfã que minha mãe recolhera, tive sempre uma pajem que me dava banho, me penteava (papelotes nas festas) e me contava histórias até que chegasse o tempo da escola. Maricota era preta e magra, a carapinha repartida em trancinhas com uma fita amarrada na ponta de cada trancinha. Não sei da Inês mas sei do seu namorado, tive vontade de responder. Ele tem feição de cavalo e é trapezista no circo do leão desdentado. Estava sabendo também que quando ela ia encontrar o trapezista, soltava as trancinhas e escovava o cabelo até vê-lo abrir-se em leque como um sol negro. Fiquei quieta. Tinha procissão no sábado e era bom lembrar que eu ia de anjo com asas de penas brancas (meu primeiro impulso de soberba) enquanto que as asas dos outros anjos eram de papel crepom.

— Corta mais cana, pedi e ela levantou-se enfurecida: Pensa que sou sua escrava, pensa? A escravidão já acabou!, ficou resmungando enquanto começou a procurar em redor, estava sempre procurando alguma coisa e eu saía atrás procurando também, a diferença é que ela sabia o que estava procurando, uma manga madura? Jabuticaba? Eu já tinha perguntado ao meu pai o que era isso, escravidão. Mas ele soprou a fumaça para o céu (dessa vez fumava um cigarro de palha) e começou a recitar uma poesia que falava num navio cheio de negros presos em correntes e que ficavam chamando por Deus. Deus, eu repeti quando ele parou de recitar. Fiz que sim com a cabeça e fui saindo, Agora já sei.

— Sábado tem procissão, eu lembrei. Vai me fazer papelote?

— Vamos ver, ela disse enquanto juntava os bagaços da cana no avental. Foi até a lata de lixo. E de repente riu sacudindo o avental: Depressa, até a casa da Juana Louca, quem chegar por último vira um sapo! Eram as pazes. Levantei-me e saí correndo atrás dela, sabia que ia perder mas ainda assim apostava.

Quando não aparecia nada melhor a gente ia até o campo para colher flores que Maricota enfeixava num ramo e, com cara de santa, oferecia à Madrinha, chamava minha mãe de Madrinha. Às vezes, ela desenhava com carvão no muro as partes dos meninos e mostrava, É isto que fica no meio das pernas, está vendo? É isto! Mas logo passava um trapo no muro e fazia a ameaça, Se você contar você me paga!

Depois do jantar era a hora das histórias fantásticas. Na escada que dava para a horta, instalavam-se as crianças com a cachorrada, eram tantos os cachorros que a gente não sabia que nome dar ao filhote da última ninhada da Keite, acabou sendo chamado de Hominho, era um macho. Foi nessa época que apareceu a Filó, uma gata meio doida que acabou amamentando os cachorrinhos porque a Keite estava com crise e rejeitou todos. Cachorro também tem crise, avisou tia Laura olhando pensativa para a Keite que dava mordidas no filhote que vinha procurar suas tetas.

As histórias apavorantes das noites na escada. Eu fechava os olhos-ouvidos nos piores pedaços e o pior de todos era mesmo aquele, quando os ossos da alma penada iam caindo diante do viajante que se abrigou no casarão abandonado. Noite de tempestade, vinha o vento uivante e apagava a vela e a alma penada ameaçando cair, Eu caio! Eu caio! — gemia a Maricota com a voz fanhosa das caveiras. Pode cair! ordenava o valente viajante olhando para o teto. Então caía um pé ou uma perna descarnada, ossos cadentes pulando e se buscando no chão até formar o esqueleto. Em redor, a cachorrada latindo, Quer parar com isso? gritava a Maricota sacudindo e jogando longe o cachorro mais exaltado. Nessas horas sempre aparecia um dos grandes na janela (tia Laura, tio Garibaldi?) para impor o respeito.

Quando Maricota fugiu com o trapezista eu chorei tanto que minha mãe ficou preocupada: Menina mais ingrata aquela! Acho cachorro muito melhor do que gente, ela disse ao meu pai enquanto ia arrancando os carrapichos do pêlo do Volpi que já chegava gemendo, ele sofria com antecedência a dor da retirada de carrapichos e bernes.

A pajem seguinte também era órfã mas branca. Falava pouco e também não sabia ler mas ouvi minha mãe prometer (como prometeu à outra), Eu vou te ensinar. Chamava-se Leocádia. Quando minha mãe tocava piano ela parava de fazer o que estava fazendo e vinha escutar: Madrinha, por favor, toca “O sonho de Lili”!

Leocádia não sabia contar histórias mas sabia cantar, aprendi com ela a cantiga de roda que cantarolava enquanto lavava roupa:

Nesta rua nesta rua tem um bosque
Que se chama que se chama Solidão.
Dentro dele dentro dele mora um Anjo
Que roubou que roubou meu coração.

— Menina afinada, tem voz de soprano, disse tia Laura batendo com o leque na mesa, estava sempre se abanando com o leque. Soprano, soprano! fiquei repetindo e correndo em redor de Leocádia que ria aquele riso de dentes fortes e perguntava o que era soprano e eu também não sabia mas gostava das palavras desconhecidas, Soprano, soprano!

— Vem brincar, Leocádia! eu chamava e ela ria e dava um adeusinho, Depois eu vou! Fiquei sondando, e o namorado? Da Maricota eu descobri tudo mas dessa não descobri nada.

Morávamos agora em Apiaí, depois da mudança tão comprida, com o piano no gemente carro-de-boi. Isso sem falar nos vasos de plantas e na cachorrada que veio no caminhão com a Leocádia e mais a Custódia, uma cozinheira meio velha que mascava fumo e sabia fazer o peru de Natal. Meu pai, a tia e minha mãe comigo no colo, todos amontados no tal fordeco meio escangalhado que meu pai ganhou numa rifa. Com o carcereiro guiando, era o único que sabia guiar.

Apiaí e a escola das freirinhas. Quando nessa tarde voltei da escola, encontrei todo mundo de olho arregalado e falando baixo. No quintal, os cachorros se engalfinhando. Por que a Leocádia não foi me buscar? E cadê minha mãe? Tia Laura baixou a cabeça, cruzou o xale no peito, fechou o leque e foi saindo meio de lado, andava desse jeito quando aconteciam coisas. Fechou-se no quarto. Custódia soprou o braseiro do fogão e avisou que ia estourar pipoca. A Leocádia fugiu?, perguntei. Ela começou a debulhar o milho, Isso não é conversa de criança.

Então entrou minha mãe. Fez um sinal para a Custódia, sinal que eu conhecia (depois a gente se fala), acariciou minha cabeça e foi para o quarto de tia Laura. Disfarcei com o prato de pipoca na mão, banzei um pouco e fui escutar detrás da porta da tia. Contei que meu marido estava viajando (era a voz da minha mãe) e que a gente não sabe lidar com isso. Uma tragédia, Laura, uma tragédia! Então o médico disse (minha mãe parou para se assoar) que ela pode ficar na enfermaria até o fim, vai morrer, Laura! Enfiou a agulha de tricô lá no fundo, meu Deus!… – A voz sumiu e logo voltou mais forte: Grávida de quatro meses e eu sem desconfiar de nada, era gordinha e agora engordou mais, foi o que pensei. Hoje ela me reconheceu e fez aquela carinha alegre, Ô! Madrinha. Era tão inteligente, queria tanto aprender a ler, queria até aprender música. Tia Laura demorou para falar: Agora é tarde!, gemeu. Mas não tocou na Inês.

Em dezembro tinha quermesse. Minha mãe e tia Laura foram na frente porque eram as barraqueiras, eu iria mais tarde com a Custódia que ficou preparando o peru. Quando passei pelo jasmineiro no quintal (anoitecia) vi o vulto esbranquiçado por entre os galhos. Parei. A cara úmida de Leocádia abriu-se num sorriso.

— A quermesse, Leocádia! Vamos?, eu convidei e ela recuou um pouco.

— Não posso ir, eu estou morta.

Keite apareceu de repente e começou com aquele latido desesperado. Antes que viessem os outros, tomei-a no colo, Fica quieta, quieta! ordenei baixinho na sua orelha. E o latido virou um gemido de sofrimento. Quieta! Aquela é a Leocádia, você não se lembra da Leocádia? Comecei a tremer. É a Leocádia! repeti e apertei a Keite contra o peito e ela também tremia. Soltei-a: Pode ir mas não chame os outros, escutou isso?

Keite saiu correndo e desapareceu no fundo do quintal. Quando olhei na direção do jasmineiro não vi mais nada, só a folhagem com as florinhas brancas no feitio de estrelas.

Entrei na cozinha. Que cara é essa? estranhou a Custódia. Encolhi os ombros e ajudei a embrulhar o peru no papel-manteiga. Vamos depressa que a gente está atrasada, ela resmungou me pegando pelo braço. Parou um pouco para me examinar melhor.

— Mas o que aconteceu, você está chorando? Enxuguei a cara na barra da saia.

— Me deu uma pontada no dente.

— Foi naquele que o dentista chumbou? Quer a Cera do Doutor Lustosa?

— Deu só uma pontada, já parou de doer.

— Pegue o meu lenço, ela disse abrindo a sacola. Ofereceu-me o lenço de algodão branco, bem dobrado. Na calçada deserta ela ainda parou um pouco para prender a fivela no cabelo. O peru era meio velho mas acho que ficou bom.

Enxuguei os olhos com raiva e cruzei os braços contra o peito, outra vez o tremor? Fomos andando lado a lado e em silêncio.

Uma Nova Cidade

Oswaldo Montenegro

Quantas saudades ficaram das terras de Minas
Dessas mulheres que guardam o olhar das meninas
Na madrugada luzia uma troca de olhares
Os nossos medos ficaram nos becos nos bares
Doeu escalar montanhas no sol dia a dia
Doeu abafar a paixão quando se mais queria
A dor e o prazer de inventar toda a felicidade
A dor e o prazer de invadir uma nova cidade

Risque Meu Nome do Seu Orkut

Xico Sá

Você amigo, você fofolete, acaba o casamento, o romance, a novela, o amancebamento, o caso, o rolo, mas continuam acompanhando a vida do(a) ex no Orkut,no Facebook, nas redes sociais mais intimistas.
Um desastre. Podendo evitar, meu caro, minha princesa, evitem. Corra fora rapaz, corra, Lola, corra. Aproveitem que os laços foram cortados no plano real e passem a régua também nas espumas da virtualidade.
O mais é sofrimento à toa, reacender a fogueira do ciúme, masoquismo, perversão, sacanagem. Um risco que não vale mesmo a pena. Depois não digam que foi por falta de aviso.
Qualquer recado ou post, mesmo os mais inocentes ou sem propósito, vira um inferno na terra. Para completar, tem sempre alguém mais sacana ainda e entra no jogo, só por ruindade, dando linha na pipa da maldade.
Prefira não, amigo, caia fora mesmo, Lola.
Não adianta nem tentar dizer que não liga, que é apenas virtual, que leva na buena, que acabou tudo bem e que é civilizadíssimo. Melhor evitar aperreios no juízo.
Você já prestou atenção, meu jovem, na fartura de tragédias amorosas que tiveram como espoleta da discórdia um simples comentário na Internet, uma foto sensual no Orkut, uma alteração no status do relacionamento?
E tem outra: precisa ser muito tranqüilo para não ficar fuçando a vida do(a) entidade chamada ex. Quem resiste ai levante o dedo.
Melhor evitar o brinquedo assassino chamado ciúme, esse satanás de chifre.
Sim, tem que ser forte para cair fora, para bloqueá-lo(a), para dar um tempo inclusive na amizade forçada –não há civilização no fim do amor, a barbárie e a selvageria sempre prevalecem.
Não basta o sofrimento mais do que real da ressaca amorosa? Basta.
Como recomendava a canção das antigas, risque o meu nome do seu caderno, pois não suporto o inferno, do nosso amor fracassado.
Ninguém segura essa onda. Claro que só uma minoria maluca chega à violência, ao inconcebível. A maioria, mesmo silenciosa, sofre horrores, se acaba, o velho pote até aqui de mágoa, como diria o xará Buarque, faça não, caia fora, faz bem para manter a sanidade.
Risque o meu nome do seu Orkut, diga ao Facebook que não estamos mais em um relacionamento sério…

Sérgio Sampaio – Cada Lugar Na Sua Coisa

Um livro de poesia na gaveta não adianta nada
Lugar de poesia na calçada
Lugar de quadro é na exposição
Lugar de música é no rádio

Ator se vê no palco e na televisão
O peixe é no mar
Lugar de samba enredo é no asfalto
Lugar de samba enredo é no asfalto

Aonde vai o pé arrasta o salto,
Lugar de samba enredo é no asfato
Aonde a pé vai se gasta a sola
Lugar de samba enredo é na escola

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